domingo, 22 de fevereiro de 2009

Charles Aznavour - Emmenez moi

Depois destes dias de sol, foi fatal algumas conversas de almoço terem ido parar ao efeito do sol no nosso estado de alma. Para mim foi igualmente inevitável pensar numa canção de Aznavour que acompanhou a minha adolescência. Era juntamente com as valsas de Strauss um dos poucos discos de 45 rpm que tinha e que ouvi até gastar o vinil ...

E justamente fala do sol e de como a miséria parece menos preocupante quando é banhada pelo sol. Bem sei que é uma teoria "perigosamente" conformista mas penso que se deve ver do lado metafórico. E nessa perspectiva toda esta canção adquire uma nova dimensão !

Podem ouvir aqui Aznavour em 1972 interpretando esta canção.

Emmenez-moi (Levem-me !)

Vers les docks où le poids et l'ennui
Me courbent le dos
Ils arrivent le ventre alourdi
De fruits les bateaux

Nas docas onde o peso e o aborrecimento
me curvam as costas
Chegam os barcos, com os ventres
carregados de frutas

Ils viennent du bout du monde
Apportant avec eux
Des idées vagabondes
Aux reflets de ciels bleus
De mirages

Chegam do fim do mundo
Trazendo com eles
Ideias vagabundas
De reflexos de ceus azuis
De miragens

Traînant un parfum poivré
De pays inconnus
Et d'éternels étés
Où l'on vit presque nus
Sur les plages

Arrastando um perfume apimentado
de países desconhecidos
e de verões eternos
onde se vive quase nu
nas praias

Moi qui n'ai connu toute ma vie
Que le ciel du nord
J'aimerais débarbouiller ce gris
En virant de bord

Eu que só conheci toda a vida
o céu do norte
Gostaria de desfazer este cinzento
virando de bordo

Emmenez-moi au bout de la terre
Emmenez-moi au pays des merveilles
Il me semble que la misère
Serait moins pénible au soleil

Levem-me ao fim da terra
Levem-me ao país das maravilhas
Parece-me que a miséria
Será muito mais suportável ao sol

Dans les bars à la tombée du jour
Avec les marins
Quand on parle de filles et d'amour
Un verre à la main

Nos bares onde ao anoitecer
com os marinheiros
falamos de mulheres e de amor
com um copo na mão

Je perds la notion des choses
Et soudain ma pensée
M'enlève et me dépose
Un merveilleux été
Sur la grève

Perco a noção das coisas
e de repente o meu pensamento
leva-me e traz-me
um verão maravilhoso
na praia

Où je vois tendant les bras
L'amour qui comme un fou
Court au devant de moi
Et je me pends au cou
De mon rêve

Onde vejo tentando agarrar-me
O amor que como um louco
corre à minha frente
e agarro-me ao pescoço
do meu sonho

Quand les bars ferment, que les marins
Rejoignent leur bord
Moi je rêve encore jusqu'au matin
Debout sur le port

Quando os bares fecham, quando os marinheiros
voltam para os seus barcos
eu sonho até de manhã
de pé no porto

Emmenez-moi au bout de la terre
Emmenez-moi au pays des merveilles
Il me semble que la misère
Serait moins pénible au soleil

Levem-me ao fim da terra
Levem-me ao país das maravilhas
Parece-me que a miséria
Será muito mais suportável ao sol

Un beau jour sur un rafiot craquant
De la coque au pont
Pour partir je travaillerais dans
La soute à charbon

Um belo dia num barco a caír aos pedaços
do casco à ponte
Para partir trabalharia na
caldeira de carvão

Prenant la route qui mène
A mes rêves d'enfant
Sur des îles lointaines
Où rien n'est important
Que de vivre

Tomando a estrada que nos leva
aos nossos sonhos de criança
em ilhas distantes
onde nada mais é importante
senão viver

Où les filles alanguies
Vous ravissent le cœur
En tressant m'a t'on dit
De ces colliers de fleurs
Qui enivrent

Onde raparigas languidas
alegram-nos o coração
bordando, disseram-me
colares de flores
que intoxicam os sentidos

Je fuirais laissant là mon passé
Sans aucun remords
Sans bagage et le cœur libéré
En chantant très fort

Fugirei deixando o meu passado
sem nenhum remorso
sem bagagem e o coração liberto
cantando muito alto

Emmenez-moi au bout de la terre
Emmenez-moi au pays des merveilles
Il me semble que la misère
Serait moins pénible au soleil...

Levem-me ao fim da terra
Levem-me ao país das maravilhas
Parece-me que a miséria
Será muito mais suportável ao sol

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Charles Trenet - La Mer

Charles Trenet nasceu em Narbonne em 1913 tendo falecido em Créteil em 2001. É um cantor e autor que foi por vezes considerado menor, ou popularucho se preferirem devido ao facto das suas canções serem normalmente sobre temas aparentemente pouco profundos e muitas vezes baseados em jogos de palavras "pobres de espírito".

Trenet foi no entanto muito mais do que um "Doido Cantante" como poderia indicar a sua alcunha "Fou Chantant", alcunha que aliás apreciava muito por achar que traduzia a irreverência, a alegria de viver que possuía e transmitia de forma sempre energética.

É aliás esta confusão entre o que era uma forma de encarar a vida, despreocupada e leve, e o seu talento que nos poderia levar a pensar que estamos perante um simples caso de moda que o tempo faria desaparecer. É uma opinião que não partilho. Trenet foi senhor de uma voz invejável e um grande poeta. Leiam por exemplo este poema:

Le Mort
Vous emporterez ma quiétude
Au fond de la légende bleue,
Compagnon de la solitude.
Chevalier d'opéra qui narguez les orages,
Aux rumeurs des grands ports, aux aubes malhabiles
Vous apprendrez le mot de passe.
Et les gens pourront s'étonner
Comme sur une autre planète
De voir des visages de cire
A leur amour que vous rendrez indifférent.

O morto
Levarão a minha quietude
Ao fundo da lenda azul,
companheiros da solidão.
Cavaleiro da ópera que fazem pouco das trovoadas,
Nos rumores dos grandes portos, nas madrugadas pouco hábeis
Aprendem o código de passagem.
E as pessoas poderão espantar-se
Como se estivessem noutro planeta
de ver as suas caras de cera
Do seu amor que tornarás indiferente.

Trenet foi também actor para além de cantor e escritor arte na qual espalhou também a mesma alegria de viver.

Depois da segunda guerra foi muitas vezes acusado de ter "colaborado" com os nazis por ter durante participado em alguns espectáculos para os prisioneiros franceses e também em grande parte por ter continuado a actuar nos cabarets parisienses então frequentados essencialmente por oficiais e soldados alemães. Que me desculpem estes últimos posts estarem tão marcados por esta parte da história de França e da Europa porém é difícil falar destes grandes poetas sem falar de uma realidade que os marcou tão fortemente. E de qualquer forma é uma realidade que não podemos esquecer.

Fiquem então com "La Mer" de 1946 a pedido de uma nossa leitora Gasolina a que junto o convite para visitarem o seu blog aqui .

La mer
Qu'on voit danser le long des golfes clairs
A des reflets d'argent
La mer
Des reflets changeants
Sous la pluie

O Mar
que vemos dançar nas baías claras
Tem reflexos de prata
O Mar
tem reflexos que mudam
à chuva

La mer
Au ciel d'été confond
Ses blancs moutons
Avec les anges si purs
La mer
Bergère d'azur
Infinie

O Mar
No céu de verão confunde
com os seus carneiros brancos
com os anjos tão puros
o Mar
Pastora de Azul
Infinita

Voyez
Près des étangs
Ces grands roseaux mouillés
Voyez
Ces oiseaux blancs
Et ces maisons rouillées

Vejam
perto dos lagos
esses roseirais molhados
Vejam
esses passaros brancos
E essas casas enferrujadas

La mer
Les a bercés
Le long des golfes clairs
Et d'une chanson d'amour
La mer
A bercé mon cœur pour la vie

O Mar
embalou-as
Nas baías claras
e numa canção de amor
o Mar
embalou o meu coração para a vida

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Thierry le Luron (1952-1986)

Pouco conhecido em Portugal Thierry le Luron foi um brilhante imitador e cómico francês. As suas paródias de vários personagens de Georges Marchais a Mitterand ficaram na história. Thierry infelizmente morreu muito novo, com apenas 34 anos vitima de cancro.

Deixou algumas pérolas que vos deixo hoje porque o que é importante também pode ser dito a rir e sobretudo porque o génio e a arte não dependem do quadrante político ... Isto como comentário a alguns comentários sobre o video que vos recomendo que vejam aqui em que le Luron faz uma paródia precisamente a Ferrat com uma letra extraordinária, incisiva e sarcástica.

Entre outras grandes interpretações de Thierry conta-se este L´important c´est la rose que a bem dizer se pode transportar para o nosso país nos nossos dias ... Será um transporte para o passado ou um salto no futuro ?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Jean Ferrat - Nuit et Brouillard

Esta canção veio-me à memória quando estava a escrever uma resposta ao comentário no meu post anterior da nossa leitora Blondewithaphd, que tinha inteira razão ao referir que a canção "O canto dos resistentes" evoca mais a clivagem França/Alemanha do que o anti-nazismo, que está apenas indirectamente subjacente na letra.

Existem alguns hinos verdadeiramente anti-nazis, anti-holocausto, pelo que sei todas posteriores ao horror. Esta é uma das canções que verdadeiramente não nos deixa esquecer o massacre, que não pode ser como alguns estupidamente pretendem ser classificados como "petite histoire". É propositadamente que não cito o nome desse sr., nem lhe coloco maíuscula no "s" que ele não merece mais do que o anonimato.

Esta canção de Ferrat data de 1963 e com ela ganhou o "Grand Prix du Disque". Jean Ferrat é um cantor que infelizmente está um pouco afastado do circuito comercial, em grande parte porque não se conforma as regras da música de plástico. Foi responsável como veremos pela popularização da grande poesia francesa (juntamente com Ferré) ao musicar e interpretar poemas de Aragon por exemplo.

Pode ouvir esta canção aqui.

Ils étaient vingt et cent, ils étaient des milliers
Nus et maigres, tremblants, dans ces wagons plombés
Qui déchiraient la nuit de leurs ongles battants
Ils étaient des milliers, ils étaient vingt et cent

Eles eram vinte e cem, eles eram milhares
Nus e magros, tremendo, naqueles vagões de chumbo
Que rasgavam a noite com as suas unhas batendo
Eles eram milhares, eles eram vinte e cem.

Ils se croyaient des hommes, n'étaient plus que des nombres
Depuis longtemps leurs dés avaient été jetés
Dès que la main retombe il ne reste qu'une ombre
Ils ne devaient jamais plus revoir un été

Achavam-se homens, mas já eram apenas sombras
Há muito os seus dados tinham sido lançados
Assim que a mão cai, apenas resta uma sombra
Eles não iriam nunca mais ver novo Verão.

La fuite monotone et sans hâte du temps
Survivre encore un jour, une heure, obstinément
Combien de tours de roues, d'arrêts et de départs
Qui n'en finissent pas de distiller l'espoir

A fuga monótona e sem pressa do tempo
Sobreviver apenas mais um dia, uma hora, obstinadamente
Quantas voltas as rodas dariam, quantas paragens, quantas partidas
Que não acabariam de destilar a esperança

Ils s'appelaient Jean-Pierre, Natacha ou Samuel
Certains priaient Jésus, Jéhovah ou Vichnou
D'autres ne priaient pas, mais qu'importe le ciel
Ils voulaient simplement ne plus vivre à genoux

Chamavam-se João-Pedro, Natacha ou Samuel
Alguns rezavam a Jesus, Jeová ou Vishnou
Outros não rezavam mas que importa o céu
Se queriam apenas não viver de joelhos

Ils n'arrivaient pas tous à la fin du voyage
Ceux qui sont revenus peuvent-ils être heureux
Ils essaient d'oublier, étonnés qu'à leur âge
Les veines de leurs bras soient devenues si bleues

Não chegavam todos ao fim da viagem
Os que voltaram podem eles ser felizes
Eles que tentam esquecer, espantados que na sua idade
As veias dos seus braços se tenham tornado tão azuis

Les Allemands guettaient du haut des miradors
La lune se taisait comme vous vous taisiez
En regardant au loin, en regardant dehors
Votre chair était tendre à leurs chiens policiers

Os Alemães vigiavam no alto das torres
A lua calava-se como voçês se calavam
Olhando ao longe, olhando para fora
A vossa carne era tenra para os seus cães policia.

On me dit à présent que ces mots n'ont plus cours
Qu'il vaut mieux ne chanter que des chansons d'amour
Que le sang sèche vite en entrant dans l'histoire
Et qu'il ne sert à rien de prendre une guitare

Dizem-me agora que estas palavras já não se dizem
Que é melhor cantar apenas canções de amor
Que o sangue seca depressa quando entra na história
E que não serve de nada pegar numa guitarra

Mais qui donc est de taille à pouvoir m'arrêter ?
L'ombre s'est faite humaine, aujourd'hui c'est l'été
Je twisterais les mots s'il fallait les twister
Pour qu'un jour les enfants sachent qui vous étiez

Mas quem é que pode fazer-me parar ?
A sombra fez-se humana hoje é Verão
Twistaria as palavras se fosse necessário
Para que um dia as crianças saibam quem voçês eram.

Vous étiez vingt et cent, vous étiez des milliers
Nus et maigres, tremblants, dans ces wagons plombés
Qui déchiriez la nuit de vos ongles battants
Vous étiez des milliers, vous étiez vingt et cent

Eles eram vinte e cem, eles eram milhares
Nus e magros, tremendo, naqueles vagões de chumbo
Que rasgavam a noite com as suas unhas batendo
Eles eram milhares, eles eram vinte e cem.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Yves Montand - Le Chant des Partisans

Há algumas canções que nos ficam na memória pelo poder da música. Outras pelo poder da letra. Outras pela conjugação das duas. Outras ainda pela força interior que libertam. Esta canção por Yves Montand, que esteve longe de ser o seu primeiro interprete, aliás a sua interpretação é bastante posterior à utilização e intenção original da canção, canto de resistência ao ocupante Nazi.

Não obstante e talvez precisamente por isso a versão de Montand faz com que esta canção ganhe uma relevância que transcende esse período na história passando a ser uma canção de resistência a todo o tipo de invasão, a todo o tipo de imposição. As palavras se tomadas no sentido literal são obviamente violentas. Não as subscrevo nesse sentido (embora no contexto em que foram utilizadas fossem perfeitamente legítimas), entendo estas palavras no sentido metafórico, porque a resistência não implica forçosamente as armas: Significa isso sim coragem.

Oiçam aqui a canção. A letra é de Joseph Kessel e Maurice Druon . Joseph Kessel viria a fazer parte da Academia Francesa de Letras, estudei pelo menos um livro dele "Le Lion" um livro que recomendo. A música é de Anne Marly de origem russa (nasceu em S. Petersburgo e chamava-se Anna Betoulinski). Esta canção foi aliás originalmente escrita em Russo e depois traduzida e adaptada para Francês pelos dois autores já citados.

Le Chant des Partisans (A canção dos Resistentes)

Ami, entends-tu
Le vol noir des corbeaux
Sur nos plaines?
Ami, entends-tu
Les cris sourds du pays
Qu'on enchaîne?
Ohé! partisans,
Ouvriers et paysans,
C'est l'alarme!
Ce soir l'ennemi
Connaîtra le prix du sang
Et des larmes!

Amigo, ouves
o voo negro dos corvos
nas nossas planícies?
Amigo, ouves
os gritos surdos do país
que acorrentam?
Oh resistente,
Operários e Camponeses,
É o alarme!
Esta noite o inimigo
Conhecerá o preço do sangue
e das lágrimas!

Montez de la mine,
Descendez des collines,
Camarades!
Sortez de la paille
Les fusils, la mitraille,
Les grenades...
Ohé! les tueurs,
A la balle et au couteau,
Tuez vite!
Ohé! saboteur,
Attention à ton fardeau:
Dynamite!

Subam das minas
Desçam das colinas
Camaradas!
Tirem dos fardos de palha
As espingardas, as munições,
as granadas
Matadores,
com balas e com facas,
matai depressa!
Sabotador!
Cuidado com o teu fardo
Dinamite!

C'est nous qui brisons
Les barreaux des prisons
Pour nos frères,
La haine à nos trousses
Et la faim qui nous pousse,
La misère...
Il y a des pays
Ou les gens au creux de lits
Font des rêves;
Ici, nous, vois-tu,
Nous on marche et nous on tue,
Nous on crève.

Somos nós que quebramos
as barras das prisões
para os nossos irmãos,
o ódio que nos persegue
a fome que nos empurra
A miséria ...
Há países onde na cama
as pessoas sonham;
Aqui, nós, vê-la tu,
Nós marchamos e matamos
nós morremos.

Ici chacun sait
Ce qu'il veut, ce qui'il fait
Quand il passe...
Ami, si tu tombes
Un ami sort de l'ombre
A ta place.
Demain du sang noir
Séchera au grand soleil
Sur les routes.
Sifflez, compagnons,
Dans la nuit la Liberté
Nous écoute...


Aqui cada um sabe
o que quer, o que faz
quando passa ...
Amigo se tu caíres
Outro amigo sai da sombra
No teu lugar.
Amanhã o sangue negro
secará ao sol
nas estradas
assobiai, companheiros,
Na noite a liberdade,
ouve-nos ...

domingo, 25 de janeiro de 2009

Boris Vian - Le Deserteur

Numa altura em que nos dizem que a violência combate-se com ainda mais violência, numa altura em que depois de caído um muro se erguem outros dois, esta canção parece demasiado simples. Porém é só aparência. Porque não é obviamente fácil ou simples não reagir ao mal que nos fazem pagando na mesma moeda. Simples, isso sim, é pegar em armas e resolver pela força.

Não significa isto que por vezes não seja absolutamente necessário optarmos por essa via (a história mostra-nos infelizmente que há casos em que é assim), significa antes que sempre que nos digam que os fins que pretendemos atingir justificam os meios que utilizamos, sobretudo quando se sublinha "é a ÚNICA maneira" devemos sempre desconfiar. Os meios têm de ser sempre justos por si próprios, nunca função do fim a que nos propomos.

Esta canção escrita em 1954 é uma canção contra a Guerra da Argélia. Boris Vian (1920-1959) é um autor de canções e de poesia relativamente pouco conhecido. A Espuma dos Dias um romance simultaneamente de ficção cientifica e prosa poética é possivelmente a sua obra mais conhecida. Esta canção de todas as que escreveu é possivelmente a mais interpretada tendo inclusivamente conhecido uma versão portuguesa cantada por José Mário Branco.

A tradução que vos proponho da canção é mais próxima que a do referido cantor e poeta português dado que a letra portuguesa fazia referência explicita à guerra colonial. Pessoalmente prefiro (até porque esta canção na altura tinha uma intenção semelhante) manter uma versão neutra. No mesmo tipo de tema (canções anti-bélicas) podem também ouvir "Mourir pour des idées oui, mais de mort lente".

Oiçam esta canção de Boris Vian aqui.

Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter

Sr. Presidente
Estou a escrever-lhe uma carta
Que talvez lirá
se tiver tempo
Acabei de receber
os papeis do exercito
para partir para a guerra
até quarta-feira à noite
Sr. Presidente
Não quero fazer a guerra
Não estou na terra
para matar as pobres pessoas
Não o quero zangar
mas preciso de lhe dizer
que a minha decisão está tomada
vou desertar

Depuis que je suis né
J'ai vu mourir mon père
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j'étais prisonnier
On m'a volé ma femme
On m'a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai sur les chemins

Desde que nasci
já vi o meu pai morrer
já vi os meus irmãos partir
e os meus filhos chorar
a minha mãe sofreu tanto
e seu túmulo
goza das bombas
goza dos versos
quando fui prisioneiro
roubaram a minha mulher
roubaram a minha alma
e todo o meu passado
Amanhã de madrugada
fecharei a porta
no nariz dos anos perdidos
e partirei pelos caminhos

Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d'obéir
Refusez de la faire
N'allez pas à la guerre
Refusez de partir
S'il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer


Irei mendigar a minha vida
nas estrada de França
Da Bretanha à Provence
e direi às pessoas:
"recusai obedecer
recusai fazê-la
não ides à guerra
recusai partir
Se for preciso dar sangue
então dê o seu
sr. presidente
se me perseguir
avise os seus polícias
que não tenho arma
e que poderão facilmente atirar

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Faleceu João Aguardela (1969-2009)

Neste blog em que procuramos demonstrar que na música popular também há grandes poetas, grandes compositores, João Aguardela tem certamente um lugar. Faleceu logo a seguir ao post sobre Ferré. Ficou em boa companhia, ele teria - penso - gostado.

Dos Sitiados confesso que guardo apenas memória de uma versão de uma música do José Afonso, mas essa ouvi-a sem exagero centenas de vezes. É um dos CDs que volta e meia está a rodar no leitor de CD´s do meu carro ...

Que descanse em paz.

Leiam no Público aqui um obituário mais detalhado